Compreender a construção para compreender o comportamento
Depois de aprender a observar a matéria e a composição, começamos a estudar as grandes estruturas têxteis. A primeira delas é a dos tecidos planos.
Trilha de conhecimento · Estruturas têxteis e ligamentos · Etapa 1 de 4
Onde você está na trilha
Com os fundamentos estabelecidos, você inicia a leitura das grandes estruturas têxteis pela construção dos tecidos planos.
Uma estrutura presente no cotidiano
Tecidos planos aparecem em camisas, vestidos, calças, saias, roupas de cama, cortinas, bolsas, peças de alfaiataria e inúmeros artigos para a casa. Tricoline, cambraia, voil, sarja, denim, brim, gabardine e cetim são exemplos que podem pertencer a essa grande família.
Embora apresentem pesos, superfícies e comportamentos diferentes, todos compartilham um princípio de construção:
Os tecidos planos são formados pelo entrelaçamento de dois conjuntos de fios.
Um conjunto segue no comprimento. O outro atravessa a largura. O encontro entre eles cria uma superfície relativamente estável, que pode ser cortada, modelada e costurada de muitas maneiras.
O que é um tecido plano

Os fios não formam laçadas, como acontece nas malhas. Eles passam uns pelos outros e criam uma superfície contínua. O modo exato como se cruzam varia e dá origem a diferentes ligamentos e famílias de tecidos.
Essa construção costuma oferecer maior estabilidade que uma malha, mas estabilidade não significa rigidez. Existem tecidos planos leves, pesados, fluidos, estruturados, transparentes, opacos, macios, ásperos, brilhantes e foscos.
Um chiffon e um denim podem ser tecidos planos.
A estrutura mostra a família; fibra, fio, densidade, ligamento e acabamento explicam as diferenças.
Urdume, trama, ourela e viés
Para compreender o tecido plano, precisamos reconhecer suas direções. O urdume percorre o comprimento; a trama atravessa a largura; as ourelas acompanham as laterais originais; e o viés está na diagonal.
ourelaourela
urdume · comprimento
trama · largura
viés
Urdume
Fios mantidos organizados e tensionados durante a tecelagem. Costumam oferecer boa estabilidade.
Trama
Fios que atravessam o tecido de uma ourela à outra e completam a superfície.
Viés
Direção em que os fios conseguem mudar mais facilmente de posição entre si.
Como reconhecer comprimento e largura
Quando as ourelas estão preservadas, a identificação é simples: a direção paralela a elas corresponde ao comprimento e ao urdume; a direção que vai de uma ourela à outra corresponde à largura e à trama.
Quando a ourela não está disponível
Um retalho pode ter sido cortado em todas as extremidades. Nesse caso, reúna pistas: compare a estabilidade e o alongamento nos dois sentidos, observe o desenho da construção, procure marcas da ourela, verifique a direção de estampas ou texturas e compare com uma parte maior do mesmo tecido, quando possível.
O que é a ourela
A ourela é o acabamento formado nas laterais durante a fabricação. Pode ser lisa, perfurada, mais firme, mais espessa, marcada por cores ou impressa com informações. Ela orienta o comprimento, mas normalmente não participa da peça porque pode ter rigidez, espessura ou encolhimento diferentes do restante do tecido.
O fio reto no molde

Nos moldes, o fio reto aparece como uma linha geralmente acompanhada por setas. Na maior parte dos projetos, essa linha deve ficar paralela à ourela. Isso posiciona a peça no sentido do urdume e ajuda a preservar o caimento planejado, a estabilidade, o equilíbrio e a simetria.
Posicione
Coloque o molde sobre o tecido sem fixá-lo completamente.
Meça acima
Meça da parte superior da linha do fio até a ourela.
Meça abaixo
Repita a medida na parte inferior da mesma linha.
Ajuste
Movimente o molde até que as duas distâncias sejam iguais.
O fio reto não é apenas uma indicação técnica.
Ele organiza a relação entre tecido e modelagem.
Por que a direção importa
O tecido não se comporta da mesma forma em todas as direções. Uma parte cortada fora da orientação prevista pode torcer, alongar, cair de maneira desigual, alterar a posição das costuras ou responder de modo diferente depois da lavagem.
Em uma calça, por exemplo, duas pernas cortadas em direções diferentes podem reagir de forma desigual: uma permanece equilibrada enquanto a outra gira ou desce de maneira diferente.
Comprimento, largura e viés

Segure o tecido no comprimento e puxe delicadamente. Repita na largura. Depois teste na diagonal. Mesmo sem elastano, o viés costuma apresentar maior capacidade de deformação.
O que o viés pode produzir
Caimento próximo
O tecido pode acompanhar melhor as curvas do corpo.
Dobras suaves
A diagonal pode criar fluidez e movimento diferentes do fio reto.
Maior deformação
Bordas e partes penduradas podem alongar durante o manuseio.
Outro planejamento
Consumo, estabilização, costura e acerto da barra podem mudar.
Cortar no viés não é apenas girar o molde para aproveitar o tecido.
O comportamento da peça muda.
Quando o molde foi desenvolvido para o viés, essa orientação faz parte da construção. Algumas peças precisam descansar penduradas antes do acerto da barra. Para quem está começando, o fio reto costuma ser mais previsível.
Estabilidade, elasticidade e movimento
Em geral, os tecidos planos apresentam pouca elasticidade estrutural no comprimento e na largura. Isso facilita posicionar moldes, marcar, cortar, alinhar costuras e construir golas, punhos, cós e pregas.
Mas nem todo tecido plano será fácil: alguns são fluidos, escorregadios, transparentes, rígidos, pesados, sensíveis à perfuração ou muito propensos ao desfiamento.
Quando o tecido plano estica
A elasticidade pode surgir pela presença de elastano, por fios texturizados, por uma construção menos densa, pelo movimento dos fios ou pelo viés. Sarjas, denims, bengalines e tecidos de alfaiataria podem apresentar alongamento sem deixar de ser tecidos planos.
Observe três aspectos
Direção: onde estica. Alongamento: quanto se move. Recuperação: quanto retorna à dimensão inicial.
Folga de vestibilidade
Como tecidos planos normalmente não acompanham o corpo pela elasticidade estrutural, a modelagem precisa construir espaço para respirar, sentar, caminhar, levantar os braços e vestir a peça. A quantidade depende do modelo, da região do corpo, da composição, da elasticidade, do fechamento e do efeito desejado.
Nos tecidos planos, o movimento costuma ser construído principalmente pela modelagem.
Como reconhecer um tecido plano
Nem sempre os fios ficam visíveis. Em tecidos finos ou densos, a superfície pode parecer quase lisa. Uma lupa e a observação contra a luz podem ajudar, sem precisar desmontar ou puxar fios de uma peça pronta.
- Há dois sentidos principais na construção?
- A superfície parece formada por fios cruzados?
- Existem ourelas nas laterais?
- Há pouca elasticidade no comprimento?
- A diagonal se move mais?
- As bordas cortadas desfiam?
Desfiamento
Quando o tecido é cortado, as extremidades dos fios ficam expostas. Tecidos fechados podem desfiar pouco; tecidos com fios grossos, lisos ou estrutura aberta podem perder fios rapidamente.
Observe se a margem está diminuindo e se os recortes pequenos permanecem seguros. Zig-zague, overloque, costura francesa, viés, bainha, costura rebatida e forro são possibilidades de acabamento, escolhidas conforme o tecido e o projeto.
Direito, avesso e sentido visual
Compare intensidade da cor, definição da estampa, brilho, textura, desenho do ligamento, fios soltos e acabamento da superfície. Depois de escolher o lado visível, mantenha a decisão em todas as partes. Quando a diferença for discreta, marque o avesso das peças cortadas.
Alguns tecidos também possuem direção visual: a estampa tem parte superior e inferior, o brilho muda, a superfície possui pelos ou as cores parecem diferentes quando o tecido é girado.
Uma prática simples

Pegue um retalho de tecido plano que ainda conserve a ourela. Não é necessário conhecer seu nome.
Observar
Encontre a ourela, identifique comprimento e largura, olhe os fios contra a luz e examine a borda cortada.
Registrar
Anote onde o tecido parece mais estável, qual direção se move mais e quanto as bordas desfiam.
Evoluir
Compare comprimento, largura e diagonal e relacione cada resposta ao corte e ao projeto.
Urdume
Puxe delicadamente no sentido paralelo à ourela.
Trama
Repita de uma ourela à outra.
Viés
Teste a diagonal sem forçar.
Camadas
Dobre e observe estabilidade, volume e caimento.
Um roteiro para a mesa de corte
- Onde estão as ourelas?
- Qual é o sentido do comprimento?
- A linha do fio reto está paralela à ourela?
- O tecido possui estampa com direção?
- Existe brilho ou superfície orientada?
- Direito e avesso foram identificados?
- O tecido está alinhado e sem torções?
- O molde foi pensado para fio reto ou viés?
- As margens podem desfiar?
- A elasticidade está na direção necessária?
Essas perguntas evitam muitos problemas antes da primeira costura.
Em síntese
Os tecidos planos são construídos pelo entrelaçamento do urdume, no comprimento, e da trama, na largura. As ourelas acompanham o comprimento e ajudam a reconhecer a direção principal.
O fio reto do molde costuma ficar paralelo às ourelas para preservar equilíbrio, estabilidade e caimento. Na diagonal encontramos o viés, que apresenta maior capacidade de deformação e pode produzir mais fluidez.
Apesar de compartilharem a mesma lógica estrutural, os tecidos planos variam em peso, espessura, caimento, transparência, brilho, textura, desfiamento e facilidade de costura.
Reconhecer um tecido plano é compreender a direção dos fios e respeitar a maneira como sua estrutura foi construída.
No próximo capítulo, conheceremos as malhas e veremos como a construção por laçadas cria outra relação entre tecido, corpo, elasticidade e movimento.
O que este capítulo acrescentou ao seu repertório
Tecidos planos
Ao concluir esta etapa, você reconhece urdume, trama, ourela, fio reto e viés e compreende por que os tecidos planos costumam apresentar estabilidade no comprimento e na largura.
